Everton Costa revela vida com desfibrilador no coração após ‘ressuscitar’

Everton sendo 'tratado' pela filha, em agosto de 2014. Meia encerrou a carreira no começo de 2015, aos 29 anos

Everton Costa abandonou a carreira precocemente, aos 28 anos, nove meses após sofrer convulsão durante jogo do Vasco, em maio do ano passado. Ele estava em campo sem saber que havia contraído Doença de Chagas, transmitida por parasita. Everton desenvolveu arritmia cardíaca e foi obrigado a deixar o futebol em virtude dos riscos à saúde proporcionados por um esporte de intenso esforço físico.

Houve a necessidade de implantação de um desfibrilador no coração de Everton. O aparelho é colocado abaixo da clavícula e possui eletrodos que acionam o coração assim que detectada alteração no batimento cardíaco.

Um ano e meio após o atendimento médico em São Januário, Everton afirma ter uma vida normal com o reforço artificial no peito.

Ao UOL Esporte, o ex-jogador conta que iniciou estudos para virar treinador.

Everton guarda rancor do médico do Santos, Rodrigo Zogaib, que é acusado pelo ex-meia de ter escondido a doença, omissão que quase custou a vida.

“Eu morri e ressuscitei dentro da ambulância. Tudo isso por culpa do médico do Santos por não ter me falado o que eu tinha e me deixar jogando mesmo com Chagas. Graças a Deus que não aconteceu coisa pior”, diz Everton, que defendeu o Santos em 2013, antes de se transferir para o Vasco.

O médico do Santos, Rodrigo Zogaib, nega ter havido negligência por parte do departamento médico santista e informa que todos procedimentos clínicos foram adotados, cujos resultados cardiológicos o liberavam para a prática esportiva (Confira a resposta abaixo na matéria).

Consultado pela reportagem, o médico Alejandro Hasslocher, especialista em Doença de Chagas e diretor do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), comentou o risco que Everton correu.

“O Everton foi ressuscitado em campo. Isso não teria acontecido se ele tivesse sido avaliado corretamente, porque nós iriamos detectar com antecedência esse quadro, e ele teria colocado o desfibrilador preventivamente e não posteriormente ao evento”.

UOL Esporte – Depois do drama que você enfrentou, como tem sido viver com um desfibrilador no coração?

Everton – Eu vivo normalmente com o desfibrilador, até porque não tenho mais o esforço físico normal de um jogador. Apenas tenho que ir ao médico a cada 6 meses para ver se está tudo certo.

Eu tive o desfibrilador implantado quando estava no Vasco. Eu seria o primeiro jogador no Brasil a atuar nesta condição, mas os médicos disseram que havia risco de morte se eu levasse uma pancada mais forte. Poderia também ter o risco de um fio lá dentro não funcionar em caso de uma bolada.

Eu parei porque eu pensei na minha família. Sou casado e tenho três filhos.

Você sabia que tinha contraído Doença de Chagas antes de ser socorrido em São Januário?

Eu não sabia porque o Santos escondeu. A doença foi diagnosticada no Santos, mas eles omitiram a informação e deixaram eu jogando. Aí eu me transferi para o Vasco. Nem eu nem o Vasco sabíamos da doença.

Como você descobriu a doença?

Eu estava tratando uma infecção no músculo do coração, só que não estava dando resultado. Não melhorava. Então o médico do Vasco falou: ‘Eu estou dando o remédio e você não está melhorando. Deixa eu ligar para o médico do Santos para saber se há algum histórico’. Aí o médico do Santos disse que o meu exame de sangue deu positivo pra doença de Chagas. Foi quando o meu médico disse: ‘Mas por que vocês não avisaram?’. Ele respondeu: ‘É sigilo médico’.

Mas sigilo médico com paciente não existe. Eu tenho até gravado a entrevista do Dr. Zogaib que não informou porque é sigilo médico. Esse exame foi feito no Santos em 2013, e em 2014 eu fui emprestado para o Vasco

O que você se recorda daquele jogo do Vasco em São Januário?

Eu estava jogando pela Copa do Brasil contra o Resende quando eu senti algo estranho no meu coração. O meu coração começou a bater forte e na hora eu fui substituído. Fiquei sentado no banco e tive arritmia. O meu coração foi a 250 batidas por minuto. Eu tive a convulsão. Aí apaguei.

Você imagina como e onde adquiriu a doença?

“Não. Fui informado de que a maioria dos casos acontece no Nordeste. O médico me mostrou um monte de barbeiro (transmissor da doença) e muitas espécies de vários lugares. Eu já tinha visto um, só que eu sei que eu nunca fui picado, nunca tive contato com ele. Eles dão muito em caldo de cana. Mas nunca morei perto de madeiras e dessas regiões”

Como foram os primeiros dias como ex-atleta?

“Por duas semanas eu não quis sair de casa. Fiquei muito abalado, mas depois eu vi que isso não ia resolver em nada.

Quais são seus planos?

Eu resolvi fazer cursos de treinador. Quero me capacitar para um dia ser treinador. Primeiramente eu quero ser auxiliar pegar uma base. Dentro de campo eu tenho experiência, mas fora das 4 linhas é completamente diferente. É difícil comandar e lidar com pessoas

Nota oficial de Rodrigo Zogaib, médico do Santos, sobre as acusações de Everton

O Santos FC realiza periodicamente avaliação deste segmento. O serviço é terceirizado de um hospital referência em cardiologia e medicina esportiva. O atleta em questão, foi submetido a todo o protocolo rotineiro, sendo liberado para a prática esportiva.

Não teve naquele momento nenhuma patologia cardíaca ou outra qualquer que inviabilizasse a prática esportiva profissional, sendo que durante aquele período no Santos FC o mesmo praticou futebol durante o período integral e não teve dificuldade ou problema algum

Infelizmente, após a saída de um atleta do clube e a ida a outro, não continuamos a efetuar os exames periódicos do mesmo, e sempre que solicitado, e isto acontece frequentemente, enviamos todos os exames do atleta ao clube que ele vai, pois muitos não fazem a relação de exames completa, como fazemos.

Acreditamos que em algum momento após a saída do mesmo do clube deve ter desenvolvido a doença cardíaca de forma que o impedisse de praticar atividade esportiva profissional, e, aí até agora não entendemos, se isto aconteceu, ele continuou praticando o futebol, sendo exposto a um risco importante, o qual ele não tinha, na época da passagem pelo Santos FC.

Fonte: UOL Esporte

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