Jorginho lembra malabarismo e ainda lamenta queda: “Faltou um goleador”

Jorginho e Zinho na entrevista da casa do treinador para o Esporte Espetacular (Foto: Raphael Zarko)

Segunda-feira, dia 7 de dezembro. Manhã seguinte ao terceiro rebaixamento do Vasco. Na sala da presidência, Eurico Miranda, Jorginho e Zinho conversam pela primeira vez poucas horas após o empate do dia anterior – 0 a 0 em Curitiba.

– Vocês querem ficar? – perguntou Eurico, olhando por cima dos óculos.

– Queremos – respondeu, de pronto, Jorginho.

– Queremos muito – assentiu Zinho.

Antes da pergunta do presidente do Vasco, a dupla já estava com a resposta na ponta da língua. Ficou gostinho de quero mais depois de 28 pontos em 19 jogos – oitava melhor campanha do returno, terceiro time que mais pontuou desde a arrancada contra a Ponte Preta, porém façanha insuficiente para escapar do rebaixamento. A “cereja do bolo” a qual Jorginho se referia na última entrevista antes da batalha final em Curitiba era, claro, a permanência na Série A. Ela não veio, mas Jorginho e Zinho convivem com aplausos e reconhecimentos de vascaínos e dos rivais desde que começaram o trabalho em São Januário.

Em entrevista ao Esporte Espetacular, Jorginho revela as dificuldades de se montar um time e cuidar de um elenco com 43 jogadores no elenco. Contesta, ao lado de Zinho, dois bons protetores, os números que apontam a equipe como aquela com maior média de idade da competição e também o time que mais sofreu gol nos últimos minutos de partida. Mas, ao mesmo tempo, reconhecem que existe a necessidade de remoçar o Vasco para 2016.

O desafio agora virou questão de honra. Subir para a Primeira Divisão. Eles querem manter a base que terminou bem o Brasileiro, citam como prioridades, de bate-pronto, Nenê, Julio César, Martín Silva, Luan… Quase todos titulares, mas também outros que por vezes sofreram contestação da torcida, como Riascos e Aislan, um reserva que mostrou o comprometimento que encantou Jorginho.

– Aislan entrou em um jogo, botou um pezinho ali contra o Joinville que nos salvou naquele momento. Vimos dedicação, pegada forte, seriedade. Quando entrou deu conta do recado. Falei com o presidente que queremos esse jogador – disse Jorginho.

A queda ainda mexe com o treinador e o auxiliar. Eles ainda remoem os erros de arbitragem, citam alguns deles nesta entrevista, e fazem reflexão da dificuldade do time no ataque, o setor que será prioridade número um para reforços em 2016.

– A grande realidade é que a gente não tinha homem-gol. Riascos fez gol, Leandrão fez um importante contra a Ponte Preta, mas a maioria dos gols saiu do Nenê, do Rodrigo, do Rafael Vaz… Muita bola parada. A gente não teve o goleador, o cara que decidia – lembrou Jorginho.

Jorginho revela ainda que temeu um veto de Eurico pela parceria com Zinho, o que foi superado de pronto pelo presidente do Vasco. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Entrosamento da dupla

Jorginho: Eu e Zinho temos afinidade muito grande. Jogamos juntos muito tempo, no Flamengo e na seleção. Temos muita coisa em comum, muita experiência dentro e fora de campo. E na hora de tomar uma decisão ele é super importante para mim, até na hora de fazer substituição. Era importante saber como ele estava vendo o jogo, às vezes ele via algo diferente e ele vinha até a mim e falava. A gente conversa muito. Ele tem visão um pouco mais ampla e para esse ano de 2016 vai contribuir muito. Vamos voltar para a primeira e tentar ir um pouco mais além e conquistar títulos.

Zinho: Somos irmãos fora do campo, nossas famílias são unidas, vamos quase todos os dias juntos para São Januário, no mesmo carro, conversando. É um convívio que não é restrito ao futebol. Essa amizade facilita muito. Tem respeito e confiança. O treinador é o Jorginho, a decisão final é dele, mas estou ali para auxiliar. Por a gente ser muito amigo, a confiança fica muito maior. Por ter experiência como gerente, tenho visão mais ampla, não só do jogo, mas de todo departamento e tento auxiliar também nesse sentido.

Emoção e pressão

Jorginho: Foi diferente de tudo que já vivemos juntos. A primeira vez que vivemos situação como essa. Chegamos com 13 pontos, chegamos a ficar 13 de quem estava fora, no olho do furacão o tempo todo, aquela responsabilidade, aquele peso. Mas foi um aprendizado maravilhoso. A cereja do bolo faltou, chegamos muito próximos, por isso estávamos muito confiantes. Eles não mereciam estar na situação que estavam. Mas mostraram poder de reação. Foi muito legal, apesar dos momentos de tristeza. Às vezes a gente pensava, “po, não é possível, a gente está jogando bem, mas não vence…” Aí começamos a ganhar, depois começamos a empatar, houve erros absurdos contra a gente, sofremos muito. Foram muitas emoções. Isso tudo nos fortaleceu muito, como amigos, profissionais.

Maior acerto
Zinho: Acho que foi conquistar confiança, resgatar deles o que tinham esquecido. Não acreditavam mais neles. Acreditavam no que todos diziam, que o Vasco já estava rebaixado. Jorginho foi muito bem sucedido. Com auxílio de todos nós da comissão fez com que acreditassem que era possível. Eles se contaminaram, acreditaram no treinador. Não é fácil liderar 43 jogadores. Só jogam 11, só pode levar 23, mas ficavam 20 de fora.Alguns erros de arbitragem que aconteceram e mais detalhes fizeram com que o Vasco não permanecesse. No último jogo mais um erro, um erro primordial no pênalti no Nenê. Posso citar uns seis jogos (com erros), prejudicaram demais. É uma pena. Mas ficou a base pra o próximo ano. E o calor humano do torcedor. A torcida do Vasco é incrível, onde paramos eles vêm. Isso nos deu motivo de satisfação muito grande.

Recuperar confiança
Jorginho: Assim que chegamos, tivemos palavra olho no olho. Zinho falou, mostrou o que queria (bate forte no braço), que queria sangue na veia. Foi uma reconstrução. A pessoa sem confiança vai cruzar mal, vai chutar mal, não vai arriscar. Sentamos com a comissão técnica e passamos tudo. Inclusive queria agradecer, pois alguns estão deixando a gente. Desde já deixamos nossa gratidão, ao Eduardo Barroca, ao Mauricio, ao Flávio Tênius, ao Paulo Angioni e ao Valdir, que vai ficar com a gente. Formamos uma família.

Mudança tática
Jorginho: Comentarmos o seguinte: não temos jogadores para jogar da forma como estamos jogando, no 4-2-3-1. Não queríamos mexer muito na estrutura da equipe, até porque chegamos diante de um desafio grande da Copa do Brasil diante do Flamengo. Não tínhamos esses jogadores, Eder Luis não estava recuperado, o Riascos estava passando por momento de dúvida e o Rafael Silva e o Jorge Henrique não são esses jogadores de extrema velocidade pelos lados. Aí foi algo marcante, decidimos mudar a forma e jogar no 4-4-2. Decidimos dar liberdade para o Nenê. Vimos que ele precisava. Não era ainda esse Nenê do fim do campeonato. A gente precisava dar consistência para ele crescer porque sabíamos do potencial dele. Conseguimos montar esse sistema e encaixamos bem defensivamente e ofensivamente colocamos peso na área dos adversários. Creio que isso foi determinante e eles absorveram muito bem. Falaravam: “Professor, muda tudo, menos o sistema tático”.

Gols nos minutos finais

Zinho: Contra o São Paulo sofremos um gol em falta claríssima. O árbitro estava muito perto, todo mundo viu o Ganso empurrando o Bruno Gallo. Mas ele não marcou nada. O da Chapecoense não foi pênalti, mas dos 15 gols que sofremos claro que vamos vamos assumir a responsabilidade. Erramos posicionamento, faltou retorno rápido, compactação. Erro nosso como treinadores de não ter montado corretamente ou até da atitude do atleta que também tem que sentir isso dentro de campo.

Jorginho: Posso ser sincero? Ficou se falando muito nisso, mas se observar no final dos jogos o time corria mais. O Jorge Henrique corria o tempo todo, o Nenê corria, era o primeiro a dar combate, dava bote, até o fim. Acho que o grande problema era que a gente não decidia quando podíamos decidir. Perdíamos muito gols. Nossos jogos era 1 a 0, um placar muito magro. Se a gente metesse três e tomasse um gol não seria nenhum problema. A grande realidade é que a gente não tinha um homem-gol. O Riascos fez gol, o Leandrão também, contra a Ponte, mas a grande maioria dos gols saiu do Nenê ou do Rodrigo, do Rafael Vaz. Muita bola parada. E a gente não teve o goleador, faltou o goleador, o cara que decidia. Mas a gente estava muito bem fisicamente. Quando jogamos quarta e domingo, a gente segurava muito eles. Quando tínhamos 10 dias de folga, a gente segurava segunda, terça, só colocava no campo na quarta às vezes.

Busca por atacante

Jorginho: Estamos em busca, é uma prioridade. Já falei com o presidente que precisamos de mais um jogador de área. Conversamos sobre o Thalles, a gente sabe do potencial, por isso peguei no pé. E o Riascos é uma alegria para nós termos recuperado. Todos desistiram dele e nós não.

Medo de veto de Eurico
Jorginho: Cheguei para reunião com o presidente, com o José Luis, com meu empresário e sentamos para conversar sobre minha chegada. Foi no domingo 16 de agosto. Eu cheguei dia 17, dia do meu aniversário. Eurico falou: “quem é seu auxiliar técnico?” Falei que ia gostar de trazer o Zinho, mas comentei que ouvi dizer que era difícil pela ligação forte com o Flamengo. “Aqui não tem isso”, ele disse. “Você mesmo passou por isso, esteve lá, agora está aqui de novo, o Isaías esteve lá não sei quantas vezes e voltou”. Foi muito direto: “Pode trazer”. E desfez a impressão que tínhamos antes da reunião, porque a gente soube que seria difícil, que a torcida poderia não aceitar, mas tudo isso ficou para trás.

Tamanho e perfil do elenco

Jorginho: Temos projeção de trabalhar com 30 jogadores, no máximo, sendo quatro goleiros. Ter 23 a 26 jogadores de linha. Era difícil. Era um malabarismo (trabalhar com 43), não podíamos separar de horário, para não haver ruído no grupo, porque às vezes um é mais amigo do outro… Tinha que montar trabalho, fazer os caras trabalharem juntos. Nisso foi mais que fundamental nossos auxiliares. Para a Série B, o pensamento é montar um grupo que encare a competição. São viagens mais longas, para Norte e Nordeste, aquelas mais próximas também são complicadas às vezes. Vai ser batida pesada. Precisamos de jogadores de pegada, pegada mais forte. Não que a primeira divisão não seja assim, claro que é, mas tem todo esse contexto de Série B. E é a obrigação, como o presidente falou. Trabalhar certinho no Carioca, nada muito diferente desse turbilhão que a gente passou durante mais de 100 dias. Vai ser por aí, mas agora com mais tempo para trabalhar.

Jogadores inegociáveis

Jorginho: É muito importante que todo grupo fique. Pedimos renovação do Serginho. Ele teve período no banco, mas terminou muito bem. Jogador de muita velocidade, muita força, tem qualidade na saída de jogo, marcação forte e chega bem na bola parada. Mas claro que o grande nome é o Nenê, queremos muito contar com ele. O presidente disse que se vier equipe de fora vai liberar, porque era um compromisso. Mas para o Brasil ele disse que não libera. Mas não podemos prescindir do Andrezinho, do Julio César, que cresceu muito, do Rodrigo, que está com 35 anos, é capitão da equipe, comanda, não é de falar muito, mas tem liderança. O Martín, que é mais fechado, mas muito profissional. Um cara inteligente, de leitura, que alerta, que está atento a tudo. Ele é pouco de falar no dia a dia, dá “bom dia”, “boa tarde”, mas chega no trabalho e muda. É impressionante a atuação dele.

Luan valorizado
Jorginho: O Luan é fundamental para a gente hoje, a gente sabe que ele está sendo pretendido. É um jogador que a gente acredita muito que vai chegar na seleção. Também é um líder.

Zinho: A gente entende o mercado, se vier proposta irrecusável, maravilhosa para o clube, a gente sabe que é difícil. Fui diretor de futebol. Mas como auxiliar estamos pedindo a manutenção do Luan (risos).

Fonte: GloboEsporte.com

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