Goleiros negros falam sobre racismo e legado de Barbosa para a posição

Somente 16 anos após a perda do título em 1950 um goleiro negro voltou a ser titular na seleção brasileira em uma Copa do Mundo. Manga atuou contra Portugal, na despedida da fase de grupos em 1966. Depois foram mais 40 anos para que Dida fosse o camisa 1 em cinco jogos em 2006.

Antes deles, o dono da posição foi Moacyr Barbosa, que completaria 100 anos de idade no próximo sábado (27), se estivesse vivo. Ele será homenageado pelos canais esportivos da Disney com um especial na sexta-feira (26), às 15h (de Brasília), na ESPN Brasil.

No torneio de 1950, Barbosa viveu ao mesmo tempo o auge, reconhecido até então como o melhor goleiro do continente, e as trevas, perseguido por supostamente ter falhado no segundo gol do Uruguai, marcado por Alcides Ghiggia a 11 minutos do apito final.

Muitos viram naquele lance a justificativa para os goleiros negros não terem oportunidades no torneio mais importante do planeta.

Entre os casos célebres, há um que envolve o humorista Chico Anysio (1931-2012), que sempre reforçava a tese. Mesmo em tempos de mais conscientização, ele mantinha o pensamento. Em 2006, publicou um texto opinativo no Diário Lance! contra a titularidade de Dida intitulado: “Não tenho confiança em goleiro negro”. Nas linhas daquela publicação, ele citava Barbosa como o “responsável”.

Mesmo dentro do futebol esse estigma é reforçado. Foi o caso de Edílson, campeão mundial pelo Brasil em 2002 e ex-jogador de grandes equipes do país, que tocou no assunto em 2018, durante participação no Fox Sports Rádio, ao analisar Jaílson, do Palmeiras.

“Zinho [presente no programa], você me falou do goleiro negão uma vez. Eu não esqueço disso. A gente tava jogando, Guarani e Palmeiras, e jogando, jogando, jogando, e o goleiro fazendo milagre, pegando cada bola. Aí eu passo por ele [Zinho] dentro do jogo: ‘Zinho, tu não vai fazer gol hoje?’. Aí ele falou: ‘Esse goleiro é negão, daqui a pouco ele erra’. Aí 43, chutaram uma bola de longe, a bola entrou, e ele passou por mim correndo, comemorando: ‘Tá vendo o que eu falei? É goleiro negão. Goleiro negão sempre toma um gol'”, disse Edílson.

“[Oswaldo] Paschoal, tem coisas no futebol, que vocês que não jogaram não entendem. Goleiro negão é igual… Depois você vai dizer”, disse.

Diante da má repercussão, no dia seguinte o ex-atacante declarou que foi uma “brincadeira comum” no futebol.

“Por causa do que aconteceu com o Barbosa, coisas como ‘goleiro negro não enxerga à noite’, ‘goleiro negro amarela’, ‘goleiro negro dá azar’ começaram a ser ditas e repetidas”, disse Aguinaldo Moreira, goleiro de Santos, Portuguesa e outros nos anos 60 e 70.

O depoimento do veterano foi dado aos repórteres durante as gravações de um especial em janeiro de 2020. Foi quando ele admitiu que também lidou com o problema ao longo da carreira. Nem mesmo aposentado se viu longe dos que pensam de maneira excludente.

“Às vezes, aparecia alguém e perguntava se eu tinha algum garoto para indicar, mas falavam ‘Tem de ser loiro, não pode ser negrão'”, disse ele, que foi um notável preparador de goleiros no Palmeiras, Santos e Corinthians, onde hoje cuida da base.

Aguinaldo Moreira é um entre vários personagens do futebol que afirma que a vida para goleiros negros é mais difícil no Brasil, ainda que o país tenha revelado dezenas de nomes gabaritados para serem protagonistas da seleção.

Além de Manga e Dida, houve gente como Veludo, Jairo, Acácio, Wagner, Helton e Jefferson. Estes até foram convocados, mas poucos chegaram aos Mundiais. Acácio e Jefferson foram reservas em Copas, e Dida foi suplente em duas edições antes de 2006.

Pouco para um país onde 55,8% da população é preta e parda, segundo dados de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE). Para um estudioso como Silvio Luiz de Almeida, o que explica esse cenário são razões além do futebol.

“Barbosa é uma figura fundamental dentro desse pensamento de que os negros não são confiáveis, que não têm uma capacidade de organização racional. A posição de goleiro exige confiança e a capacidade de organização racional é fundamental”, disse.

Advogado e doutor em filosofia, ele é reconhecido como uma das vozes mais fortes no combate ao racismo. Mais do que isso. É filho de Lourival de Almeida Filho, goleiro de Corinthians, Portuguesa e Athletico-PR nos anos 60, cujo apelido era Barbosinha.

“Ao carregar o nome de Barbosa, a quem meu pai tinha como ídolo, meu pai levava como algo positivo ao mesmo tempo em que ele sabia que seria julgado pelos erros e esperariam uma falha para criticá-lo”, disse.

Foi o que aconteceu em 1967, durante o Dérbi Paulista. O Palmeiras venceu por 2 a 0, encerrando a chance de a equipe alvinegra brigar pela taça e encerrar um longo jejum de títulos. A culpa recaiu sobre Barbosinha, que teria sido expulso do clube.

“Meu pai sofreu dois gols de falta do Tupãzinho, que inclusive era amigo dele. Na época, ele admitiu que um gol foi indefensável e o outro foi uma falha. Agora, a história de que ele teve que sair do Parque São Jorge, deixar o Corinthians, isso não é verdade. Ele continuou no clube. Um monte de mito foi criado em cima daquilo, o que faz exatamente que a gente retorne. Ou seja, foi necessário criar uma narrativa de fracasso justamente para ligar a história de todos os goleiros negros com uma história de fracasso”, disse Almeida.

Ataques racistas

A história que o ex-goleiro Aranha vivenciou foi ainda pior. Ele não falhou nem sofreu um gol que prejudicou o Santos. Ficou marcado por reagir aos gritos racistas vindos das arquibancadas da Arena do Grêmio, durante uma partida pela Copa do Brasil de 2014.

“Nunca toco nesse assunto. Eu espero que as pessoas me perguntem. Aí eu respondo. Sempre tem aquele que fala, você usa aquela história do Grêmio para se promover… Não! O que me incomoda é a negação. É negar um fato. Sempre foi difícil para o negro provar, enfrentar esse tipo de situação. Se você não tem como provar, você acaba prejudicado. Mas naquele caso tem a imagem. Deveria ter mais de 20 mil pessoas me atacando verbalmente, cometendo injúrias. Eu pedia aos câmeras: ‘Cara, filma isso! Vira a câmera pra lá. Por que vocês não estão filmando?’. Eles estavam com o foco em mim, porque o negro é o agressivo, o negro é o desequilibrado. A expectativa maior era pela minha reação. Eu fazer um gesto obsceno, xingar o torcedor. Aí eu seria muito mais punido”, relembrou.

A repercussão foi muito grande e colocou Aranha nos holofotes, mas a forma como o caso foi tratado pela mídia não ajudou a conscientizar as pessoas, diminuindo manifestações como aquela. O reflexo acabou sendo sentido mesmo pelo goleiro.

“Ninguém queria contratar o encrenqueiro. Ninguém queria contratar o cara que estaria falando sobre racismo, sobre esses temas complicados com a camisa do seu clube. Naquela época, não pegava bem”, disse.

Depois do Santos, ele defendeu o Palmeiras por dez meses. Após quase seis parados, acertou com o Joinville, onde ficou por cinco partidas e rescindiu para jogar pela Ponte Preta. Ficou por pouco mais de seis meses e foi para o Avaí.

A experiência na equipe de Florianópolis foi a última do goleiro no futebol profissional. Ao ter o contrato rescindindo em dezembro de 2018, ele se aposentou. Vale acrescentar que nessas últimas equipes ele conviveu com atrasos salariais e muitas promessas não cumpridas.

Sobre ataques racistas, Aranha vivenciou antes do caso em Porto Alegre inúmeras outras situações. Ele relembra histórias de quando era rejeitado nas peneiras ou até mesmo na base de clubes importantes por não “atender ao padrão”.

“Eu fui dispensado umas três vezes por causa da minha cor. ‘Por que vamos ficar com esse cara aqui se goleiro negro não vinga?’. Uma vez eu fiz um amistoso, joguei muito e aí o presidente do clube pegou na minha mão, me deu parabéns e falou ‘Pena que você é negro'”, relembrou.

As situações descritas por Aranha ocorrem sobretudo de forma velada. Como explica Silvio Luiz de Almeida, este é o racismo estrutural.

“O racismo ele se estrutura no nosso país. Uma das coisas que ser negro no Brasil e que você é sempre olhado como parte de um grupo. Nunca como um indivíduo. Ou seja, o erro do negro é o erro de todos os negros. Coisa que não acontece com os brancos. Os brancos, inclusive têm o direito de errar individualmente. E como erra enquanto indivíduo, eles podem se corrigir, ele são passivos de perdão. Agora, o erro de um negro é o erro de todo mundo”, disse o doutor em filosofia.

Barbosa, o vitorioso

Tanto Silvio Luiz de Almeida quanto Aranha afirmam que a grande herança deixada por Barbosa para eles não foi o estigma sobre o goleiro negro, mas uma história pioneira e vitoriosa.

“Como goleiro, ao ver o gol de 1950, pensava ‘É por isso que goleiro negro não é confiável?’. Quanto mais eu pesquisava, quanto mais eu me interessava por estes assuntos raciais, principalmente no futebol, eu compreendia melhor aquela crítica. Não foi pelo gol que o Barbosa foi perseguido. Foi pelo que ele representava. Em uma época que o futebol era uma coisa tão elitizada, ter um negro, ainda mais numa Copa do Mundo, era ruim para a imagem. Pelo menos alguns pensavam e ainda pensam assim”, disse Aranha.

“Mas ele jogou num gigante como o Vasco, foi ídolo e chegou a Copa como titular. Só isso mostra a grandeza do Barbosa. A garotada que está vindo não vai pegar facilidade. Mas, é claro que, como a gente diz na brincadeira, vai pegar a rua asfaltada porque muitos abriram caminho. O Barbosa foi pioneiro lá atrás, desbravando a mata para que viesse Edinho, Vagner, Dida, Jefferson e vários outros. O caminho está aí, mas só vamos passar tranquilamente quando a nossa sociedade soube lidar com o racismo”, completou.

Silvio Luiz de Almeida vai além. Fala da necessidade de o Brasil olhar para a trajetória de Moacyr Barbosa e pedir perdão pelo que fez a ele. Mais: diz que é hora de olhar o homem agora centenário como ele merece na história.

“Mais do que perdão, o Brasil deve reconhecer a importância desse homem e homenageá-lo. Homenagear uma pessoa que construiu o imaginário brasileiro e o imaginário que a gente precisa construir, ou seja, um homem negro, vitorioso, porque o Barbosa… Eu quero virar essa chave. A gente sempre fala do Barbosa na chave da derrota, né? Mas eu quero dizer o seguinte: o Barbosa é um vitorioso. A partir de agora, só vamos falar nisso. O Barbosa é o nome da vitória. Ele simboliza a vitória do futebol brasileiro e do povo negro brasileiro. Ele não é a derrota. Se não fosse a derrota de 50, talvez não tivesse a Copa de 1958, ou seja, o Barbosa é a vitória do Brasil”, finalizou.

Ser antirracista

Quem também tem um depoimento para acrescentar nessa importante missão é o ator Antônio Fagundes, cuja história está ligada a Barbosa por causa do curta-metragem “Barbosa”, lançado no Festival de Gramado, em 1988.

O filme foi dirigido por Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo. Narra a história de um homem (Fagundes) que volta ao dia da final da Copa de 1950 para salvar o goleiro, evitando que ele sofresse o gol, o Brasil perdesse a Copa e a culpa recaísse sobre seus ombros.

“Na vida real, eu nasci em 1949. Tinha um ano durante o Mundial e não cheguei a acompanhar, mas a estrutura dramatúrgica da história é tão bem feita que funciona muito bem no cinema. E o caminho que o diretor seguiu foi fantástico. Primeiro que ele mostrou a injustiça contra esse grande jogador. Segundo que ele mostrou o fim de vida triste que esse jogador passou por causa de uma série de preconceitos infundados. E terceiro que ele fez um filme muito bem feito, com muito carinho, com muita compaixão”, disse Fagundes à reportagem.

Sobre a questão racial, o ator de 71 anos acrescenta ao debate fatos históricos na evolução do Brasil, na construção da nossa diversidade, mostrando que o fim desses casos também depende de uma reconstrução.

“Para você ver como a nossa visão sobre nós mesmos está errada. Na época do Descobrimento, Portugal tinha um milhão de habitantes. Para ocupar esse enorme território, era preciso que houvesse uma miscigenação, que foi forçada. Os negros eram escravos. E nós tivemos uma tradição escravocrata de 350 anos. Uma sociedade escravocrata deixa marcas profundas para sempre”, iniciou.

“Estamos vivendo ainda momentos de autoritarismo, de racismo, de homofobia. Preconceitos que surgiram de muitos anos para cá. Nossa cultura não é essa cultura do homem cordial, que a gente gostaria que fosse. Nem da miscigenação nem da democracia racial. É uma cultura escravocrata. Por isso que hoje se luta tanto contra o racismo. Mas não basta você não ser não racista. É preciso que você seja antirracista porque essa cultura deixou marcas. É preciso que você preste atenção em cada palavra, cada gesto, cada olhar, cada interpretação para ver se não estamos trazendo o resto dessa cultura escravocrata que é tão nociva para a formação do país”, completou o ator.

Fonte: ESPN.com.br

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