Orçamento do Carioca diminuiu consideravelmente em 2021

A edição de 2021 do Campeonato Carioca acabou com título do Flamengo. Mas fora de campo a disputa ainda não terminou. Os clubes debatem a divisão da receita arrecadada no primeiro ano de um modelo de transmissão que, na visão dos dirigentes, não conseguiu entregar resultados financeiros satisfatórios.

Na arrecadação, o Flamengo também ficou em primeiro lugar. Os três outros clubes grandes viram a receita despencar, enquanto os oito pequenos ainda não receberam um centavo sequer das cotas de TV aberta e pay-per-view.

Em 2020, 11 dos 12 clubes do Carioca – a exceção era o Flamengo – tinham contrato de transmissão com a Globo. A empresa rescindiu o compromisso por quebra da exclusividade prevista nos contratos. Posteriormente, sete dos 11 clubes fizeram acordo com a Globo. A Federação de Futebol do Rio (Ferj) e quatro equipes de menor investimento acionaram a empresa na Justiça. No último dia 20, juiz da 10ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio deu decisão favorável à Ferj. Cabe recurso.

Para 2021, os direitos do campeonato foram divididos em três tipos de venda: TV aberta, pay-per-view para operadoras e PPV direto dos clubes. A Sportsview foi a responsável por produzir o PPV das operadoras e fornecer as imagens para os canais de cada equipe.

Como os clubes só assinaram o contrato no dia 28 de janeiro, o prazo para comercialização dos patrocínios avulsos ficou muito curto. A Sportsview pretendia vender três cotas – uma de naming rights do torneio e duas de patrocínio máster. Não fechou nenhuma.

No início de março, o sócio da Sportsview, Marcelo Campos Pinto, disse ao “Meio & Mensagem” que a expectativa era alcançar 400 mil assinantes de pay-per-view na edição deste ano. Em entrevista ao ge na quinta-feira, Campos Pinto afirmou que a meta era de 250 mil pacotes. O PPV encerrou o Carioca com quase 210 mil assinantes.

A previsão de arrecadação tampouco se confirmou. Entre assinantes e patrocinadores, os organizadores imaginavam arrecadar R$ 50 milhões. As cifras ficaram aquém disso. O faturamento bruto foi estimado na casa dos R$ 36 milhões. Segundo Campos Pinto, a receita foi de R$ 30 milhões líquidos. No entanto, boa parte desse dinheiro não chegará aos clubes, em razão de taxas e descontos.

– Efetivamente tivemos dificuldades na venda de patrocínios. A exiguidade de tempo – os clubes assinaram o contrato em 28 de janeiro e o campeonato começou em 3 de março – e o fato de que o mercado publicitário aloca as grandes verbas entre setembro e novembro de cada ano foram os maiores problemas enfrentados. Além disso, não tínhamos track record: os investidores pediam números de audiência e métricas de rede social. As audiências anteriores eram da Globo, e o Carioca não tinha redes sociais ativas. Fizemos um trabalho de desenvolvimento de redes sociais, 100% bancado pela Sportsview, e hoje o Cariocão detém a terceira maior rede das competições nacionais de futebol, perdendo apenas para a Série A do Brasileirão e a Copa do Brasil – disse Campos Pinto ao ge.

A verba da TV aberta seria rateada com 60% do valor líquido ficando para os grandes (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco) e 40% para os oito pequenos. Mas, como o contrato com a Record foi usado para financiar a produção das transmissões, os primeiros R$ 6 milhões foram carimbados direto para a Sportsview.

Esse contrato teve um aditivo de R$ 300 mil para garantir a produção de todos os jogos. Além disso, a Federação de Futebol do Rio recebe 10% do valor bruto, o sindicato de atletas morde 5%, e o INSS, outros 5%. Sobrou para os times uma divisão de pouco mais de R$ 2,2 milhões – sendo 60% para os grandes e 40% para os pequenos – assim que as últimas parcelas forem pagas. Cada grande receberá R$ 288 mil de TV aberta. Os pequenos terão direito a R$ 110 mil cada.

Os grandes acordaram receber esse valor diretamente da Record, o que incomodou a Ferj, que perdeu o poder de ser o caixa do campeonato. A federação manteve a incumbência de fazer o repasse aos clubes pequenos.

No pay-per-view operado pelos clubes, a receita fica com quem vender. O Flamengo, segundo fontes ouvidas pela reportagem, aproximou-se de 65 mil pacotes comercializados, com faturamento estimado de R$ 7,2 milhões. Essa verba tem descontos de impostos e da Brado Media, empresa que operou o aplicativo da Fla TV+. A estimativa é que o clube tenha embolsado perto de R$ 5 milhões líquidos com o PPV próprio.

O Vasco vendeu perto de 15 mil pacotes (faturamento bruto de R$ 1,8 milhão). O Fluminense vendeu quase 12 mil (R$ 1,4 milhão), e o Botafogo, quase 11 mil (R$ 1,3 milhão). Os três fizeram contrato com a TVN Sports para transmitir seus jogos – que recebe um percentual variável do faturado. Com os descontos, o Vasco deve embolsar cerca de R$ 1,3 milhão; o Fluminense algo como R$ 1 milhão, e o Botafogo cerca de R$ 900 mil.

As TVs próprias enfrentaram problemas no primeiro ano. Quedas de sinal e travamentos foram objeto de reclamação constantes, especialmente nas primeiras rodadas, muitas vezes por conta de compras ou acessos simultâneos perto das partidas.

Mas os clubes foram também vítimas de hackers. Um desses ataques chegou a tirar o sinal de Botafogo x Fluminense do ar no início do jogo. O hacker deixou uma espécie de assinatura de um site de transmissões piratas abrigado no exterior. Um executivo de streaming ouvido pela reportagem diz que o torcedor não sabe que deixa o computador vulnerável quando opta pela transmissão pirata.

– Você está vendo o jogo achando que é de graça, mas o pirata está lá coletando seus dados e brincando no seu computador.

Por fim, voltando ao dinheiro, há a divisão do valor arrecadado pelo PPV das operadoras. Elas venderam cerca de 110 mil pacotes, além de 5 mil jogos avulsos. Dos valores brutos, os clubes ficariam com 53%. Só que a Ferj morde 10% do valor. A reportagem apurou que os times vão dividir entre R$ 7,5 milhões e R$ 8 milhões. O formato dessa divisão, porém, virou razão de discórdia que ainda não foi resolvida.

Antes do campeonato, o Flamengo demandou 60% do valor, sugerindo cotas de 20% para o Vasco, 10% para Fluminense e 10% para o Botafogo. Os três não aceitaram, e a Sportsview desenhou um acordo para que a divisão fosse feita a partir do cadastro de torcedores nas operadoras. O clube que tivesse 20% da base pagante receberia 20% do dinheiro arrecadado, por exemplo. Mas as operadoras tiveram problemas para apurar o time dos torcedores. A Claro só obteve a informação de uma pequena parcela dos assinantes. Sky e Vivo não conseguiram fazer o levantamento.

E aí começou a briga nos bastidores. Na parcela apurada pela Claro, o Bangu – que era o primeiro time na tela de cadastro, em ordem alfabética – aparecia com 4% dos assinantes. O Flamengo – que tinha 57% da preferências – argumentou que esse percentual deveria servir como pesquisa. Botafogo, Fluminense e Vasco não toparam.

Há quem defenda uma divisão semelhante à da TV aberta, com 60% para os grandes e 40% para os pequenos, o que poderia ser uma boia de salvação para estes últimos, que estão em situação financeira dificílima. Uma das suas poucas fontes de receita será a divisão das cerca de 10 mil vendas do pacote do aplicativo Cariocão TV, para exibição de jogos entre os times de menor investimento.

Alguns dos pequenos chegaram a reclamar da “sobra de valor irrisório” a ser dividido por oito equipes do contrato de TV aberta e voltaram suas baterias contra a Sportsview. A Ferj emitiu nota após questionamentos do ge. A entidade diz que “não recebeu nenhuma receita destinada a qualquer dos chamados clubes pequenos por ocasião das 3 primeiras cotas, integralmente destinadas ao pagamento de despesas”.

Um sinal claro das dificuldades financeiras do Carioca de 2021 foi a ausência de premiação. A Ferj tinha previsto premiar o campeão (R$ 1,5 milhão), o vice (R$ 500 mil), os semifinalistas (R$ 500 mil cada), o campeão da Taça Guanabara (R$ 1 milhão) e o campeão da Taça Rio (R$ 1 milhão). Mas admitiu que não terá dinheiro pra isso.

– A federação não é fonte pagadora de premiação, mas tão somente de repasse, retirado do valor global da arrecadação da competição quando da existência de receita para tal. Este ano, o primeiro do novo modelo de negócio, a expectativa não foi atingida e não houve sobra para premiação – informou a Ferj.

Cotas de TV aberta

Até a publicação desta reportagem, os grandes receberam somente a cota de TV aberta referente a maio, além dos ganhos com as vendas diretas de pay-per-view dos canais dos clubes. A Record fez os pagamentos nas datas combinadas (veja abaixo), mas, antes de maio, toda a verba foi usada para bancar custos de produção, por isso não chegou aos cofres dos times. Falta apenas o pagamento da parcela de 1 de junho, que ainda não venceu.

  • R$ 2,5 milhões na assinatura do contrato
  • R$ 2,5 milhões – dia 1/3
  • R$ 2 milhões dia – 1/4
  • R$ 2 milhões – dia 1/5
  • R$ 2 milhões – dia 1/6

Os únicos pequenos que receberam algum dinheiro este ano foram os que conseguiram vaga na Copa do Brasil. O pagamento foi feito através da CBF, caso do Volta Redonda e do Boavista.

As outras equipes de menor investimento, principalmente Macaé e Bangu, atravessam grave crise, com atrasos de salários e problemas com jogadores. O Macaé ainda sofre com a polêmica de atletas investigados por envolvimento em manipulação de resultados. O Bangu tem pela frente a Série D, competição que os dirigentes consideram deficitária.

Questionada sobre os repasses aos pequenos, a Ferj respondeu:

– Da quarta quota, recebida em 1 de maio, o valor destinado ao rateio entre os 8 clubes formadores foi de R$ 192.000,00, cujo critério de distribuição ainda não foi definido pelos próprios clubes (oito clubes). A Ferj jamais deixou ou deixará de repassar qualquer receita para os filiados a qualquer tempo.

Com este cenário, os clubes pequenos reconhecem nos bastidores que será necessário fazer mudanças para o ano que vem. O discurso é seguido por Botafogo e Vasco, que se manifestaram publicamente contrários ao atual formato (confira as notas divulgadas pelos clubes e pela federação mais abaixo).

Apesar do desejo por mudanças de algumas partes, já existe para 2022 um contrato assinado com a TV Record, no valor total de R$ 15 milhões, e com a Sportsview. Há, por outro lado, a esperança de que, com mais tempo e previsibilidade, seja possível viabilizar comercialmente a venda das cotas de patrocínio e naming rights, o que reduziria a pressão dos clubes sobre a Sportsview.

– Com tempo para planejamento e comercialização, o Cariocão 22 certamente irá gerar receitas substancialmente melhores do que neste ano – afirmou Marcelo Campos Pinto.

Outras receitas

Os clubes questionam a Ferj em relação aos valores recebidos da rede social Tik Tok, que transmitiu as partidas da Taça Rio. Segundo dirigentes ouvidos pela reportagem, a federação não fez o repasse aos clubes deste acordo, que gira em torno de R$ 400 mil.

Existe ainda uma discussão quanto ao repasse de outras duas cotas: direitos de aposta e cessão internacional. Segundo os clubes, alguns jogos foram exibidos em 40 países. Com isso, as equipes cobram um valor de cerca de R$ 600 mil desses direitos para serem pagos pela Ferj. Mas a discussão referente à divisão desses valores está longe de um consenso.

Procurada, a Ferj se manifestou através de nota:

– A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro não recebeu qualquer receita oriunda de TikTok e de direitos internacionais, o que esperamos acontecer em breve.

Posições de clubes e federação

O ge procurou representantes de todos os clubes do Carioca e da Ferj. Inicialmente, os times pequenos preferiram não se manifestar. Após uma reunião com a federação, quatro dessas equipes emitiram nota conjunta:

“Nós, Madureira, Portuguesa, Bangu e Volta Redonda esclarecemos que como todos os demais clubes da Série A participamos da decisão por unanimidade, em Conselho Arbitral, pela busca de um novo modelo de negócio para os direitos de transmissão do Campeonato Carioca 2021 – ressalte-se: pioneiro, inovador e, no Brasil, líder na tendência. A mudança de formato acarretou dificuldades e adequações. Soma-se a isso, o que é ponto fundamental, é que os prognósticos comerciais apresentados pela Sportsview para o ano de 2021 não se consumaram, aumentando a dificuldade que os clubes já imaginavam que teriam por ser o ano de implantação do modelo, transformando os sonhos anunciados em pesadelos concretos. No entanto, o maior obstáculo financeiro foi o rompimento unilateral pela TV Globo em 2020 do contrato que tinha duração até 2024, seguido de verdadeiro calote total para alguns e vantagens para outros, comprometendo o fluxo de caixa de todos e deixando surpresos por se tratar de uma parceira de longas datas com comportamento, até então, íntegro. A respeito da cota de maio do campeonato atual, por força de contrato, está carimbada e destinada a outros compromissos e despesas com sobra de valor irrisório para ser dividido por oito clubes, de forma ainda não decidida”.

Citada no texto conjunto dos quatro clubes, a Globo emitiu a seguinte nota.

“Além de uma pandemia que impôs ao ambiente esportivo uma série de desafios, a Globo foi surpreendida com uma Medida Provisória que colocava em risco todos os contratos assumidos até então. Um deles era em relação ao Campeonato Carioca, que garantia à Globo exclusividade sobre os direitos de transmissão dos jogos que não envolvessem o Flamengo, clube com o qual não tínhamos acordo. Essa exclusividade foi quebrada e motivou a rescisão por grave violação contratual, da qual, é preciso lembrar, a Globo foi vítima. Apesar da quebra de contrato, a Globo ainda se dispôs a realizar os pagamentos restantes da temporada 2020 como prova do compromisso da empresa com o futebol Carioca. Fizemos acordo com sete dos 11 clubes com quem tínhamos contrato. A alternativa com os outros, infelizmente, foi que o assunto fosse resolvido no âmbito da justiça”.

Boavista e Resende soltaram notas iguais, informando que o clube “ainda não tem nenhuma informação sobre esses valores e permanece aguardando”. Macaé e Nova Iguaçu preferiram não se manifestar.

Entre os grandes, Flamengo e Fluminense também decidiram não se pronunciar. O Vasco se manifestou através de seu CEO, Luiz Mello.

– Financeiramente o Campeonato Carioca não foi atrativo. A arrecadação para os clubes deve ter sido a menor dos últimos anos. Não podemos repetir essa fórmula sem ter a certeza de um mínimo garantido, próximos aos níveis recebidos da TV Globo nos anos anteriores. O lado positivo da mudança, se é que teve, foi o desenvolvimento da VascoTV. Para a VascoTV foi um grande aprendizado. Criamos um produto customizado, muito mais atrativo ao nosso torcedor, de vascaíno para vascaíno, como costumamos dizer. E a receptividade da torcida foi incrível. Nos aproximamos, dialogamos diretamente com vascaínos e vascaínas de todas as partes do mundo. Trouxemos os ídolos para dentro de São Januário, valorizamos nossos ativos. Estamos diante de uma mudança na forma de consumo de TV e o Carioca serviu de laboratório para alguns testes, porém financeiramente, sem entrar no mérito da arrecadação, ficou muito aquém das expectativas geradas. Por essa razão, precisamos rediscutir novas fórmulas e, quem sabe, novos parceiros.

O Botafogo emitiu nota oficial.

“O Botafogo é favorável a uma rediscussão imediata dos critérios desse rateio. Há uma definição clara no modelo atual de quem se quer beneficiar. Assim como mais receitas e mais lucro aumentam o valor de uma companhia, competições que agregam mais aumentam o valor de um clube de futebol. Enquanto perpetuarem modelos de competição onde a distribuição de receitas é tão desigual, privilegiando um em detrimentos de tantos, destrói-se o valor da indústria do futebol. A distribuição perversa estimula um desalinhamento de interesses em que a ganância do maior e o desespero dos menores inviabiliza o próprio conceito de liga de futebol.

Em pensamento mais amplo, evoluindo para uma análise sobre o modelo de direitos de transmissão de forma geral, o Botafogo enxerga com bons olhos iniciativas europeias, que negociam em bloco e sob critérios mais democráticos, que corrigem distorções no rateio de valores e valorizam a competitividade entre os clubes. Não há outro caminho possível que não o do pensamento coletivo e com foco no equilíbrio: qualquer outro formato, principalmente o atual, diminuirá o tamanho do negócio e o interesse dos torcedores em geral.

A indústria do esporte mostra que negociações coletivas frequentemente aumentam os valores investidos e a qualidade do espetáculo. Em paralelo com a sociedade, a concentração de renda é uma questão problemática que gera desequilíbrio e desigualdade social, acarretando uma série de mazelas.”

Fonte: ge

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