Contra o São Paulo, Lisca surpreendeu e mandou o Vasco a campo no sistema 3-3-3-1; veja os detalhes

Toda eliminação dói, e não poderia ser diferente na derrota para o São Paulo, em São Januário, que tirou o Vasco da Copa do Brasil. Deixando VAR e a arbitragem de lado, há uma luz no fim do túnel: o Vasco jogou seu melhor futebol em muito tempo e foi muito superior ao adversário até a expulsão de Léo Jabá.

O bom desempenho foi fruto de uma estratégia inventiva por parte de Lisca, que surpreendeu com um 3-3-3-1. Isso mesmo: sem laterais, com três meias atrás de Cano e três zagueiros bem fixos lá atrás. Pode parecer loucura, mas o Vasco simplesmente anulou o São Paulo e construiu muitas chances, incluindo um gol anulado, quando teve onze em campo.

Funcionou assim: Ernando, Miranda e Leandro Castán formavam uma linha atrás. Bruno Gomes (substituído por Rômulo) foi o primeiro volante. Juninho e Zeca, lateral de origem, não atuaram pelos lados. Eles foram meias centrais, com Morato logo à frente, quase que um losango no meio-campo.

Como Orejuela apoiava bastante, Morato muitas vezes abria pela direita. Cano, Jabá e Marquinhos Gabriel ficavam mais à frente, como você vê na imagem abaixo.

Foi de fato um esquema surpreendente. Mas a beleza do lado tático do futebol não é identificar o esquema ou a movimentação. É entender os motivos que levaram o treinador a optar pelo sistema. É destrinchar as intenções de cada técnico, o que ele vê num time e como prepara sua equipe para explorar aquilo.

Lisca adotou o 3-3-3-1 para anular Rigoni e Pablo e depois, com a bola, bagunçar os encaixes individuais longos que o São Paulo adota com Crespo.

Zaga com três anula bolas diagonais para Rigoni e Pablo

No Morumbi ficou claro: o São Paulo é uma equipe forte quando lança, pelo alto e em diagonal, seus atacantes. Rigoni, Marquinhos e até Pablo conseguem espaço quando são lançados por Benitéz, que teve muito espaço no jogo de ida. Lisca quis dar um basta nisso. Por isso, lançou três zagueiros com uma tarefa clara: marcar individualmente a dupla.

Ernando e Castán vigiavam de perto Pablo e Rigoni. Já Miranda, o “jovem experiente” como o técnico disse na coletiva, tinha a missão de ser a sobra e auxiliar os companheiros no encurtamento de espaço, ou se antecipar às bolas longas vindas de Benitéz. A imagem mostra bem essa disposição.

Zeca confundia Orejuela e abria espaço para Morato e Marquinhos

A lógica de Lisca quando o Vasco tinha a bola começava no sistema de marcação do São Paulo: encaixes individuais, típicos do futebol brasileiro.

Voltando, os encaixes pressupõem que cada jogador tenha um adversário e, com Crespo, eles devem acompanhar até o fim. Lisca queria confundir essa lógica, e a chave do sistema era Zeca. Ele não ficava na faixa esquerda do campo. Procurava o centro, gerando dúvida: quem marcava individualmente ele era Orejuela, o ala, ou Luan, o volante?

Dúvida significa pensamento, que significa tempo….o que, no futebol, é igual a espaço. A indecisão sobre quem marcava Zeca abria um buraco no lado direito do São Paulo, por onde Morato e principalmente Marquinhos Gabriel caíam e criavam as melhores chances, em passes diagonais, por baixo, para as projeções de Cano.

Veja aqui: Orejuela e Talles ficam perdidos com o posicionamento de Zeca, e Luan vai marcar o homem da bola. O resultado é Marquinhos Gabriel livre e com espaço – até Orejuela chegar, ele já deu o passe e Cano já se deslocou de Miranda.

Jogadas diretas faziam zaga do São Paulo quebrar a sobra

Jogar com marcações individuais é uma estratégia arriscada. Pode dar certo e errado, como tudo. Exige intensidade, concentração máxima e muita comunicação em campo. Será que é acaso o São Paulo sofrer tanto com lesões musculares, sendo que corre o campo inteiro, o tempo todo, a cada jogo?

Para reduzir os riscos, Crespo adota o sistema de três zagueiros com uma sobra. O jogador livre, que “limpa” a sujeira da marcação. Pois bem: Lisca tirou essa sobra. Morato e Marquinhos circulavam por trás dos volantes do São Paulo e recebiam o passe diretamente da zaga.

Assim, a zaga do São Paulo tinha que ser acionada e perdia a sobra, porque um zagueiro saía para marcar o homem da bola e outros dois ficavam com Cano e Morato, ou Jabá. Cano, mestre em projeções, conseguiu ao menos três finalizações assim.

Muito espaço em campo para o Vasco jogar

Observe acima como Luan, Talles e Benitéz estão mal posicionados. Isso é morte nos encaixe, porque um jogador livre significa uma bagunça imensa em quem pega quem. Rômulo, que entrou na vaga de Bruno Gomes, percebeu que Benitéz era um a menos na marcação, e nos melhores momentos do primeiro tempo – do gol anulado até a expulsão – passou a apoiar mais.

Observe como o São Paulo “encaixa” inteirinho o Vasco, a ponto de Orejuela aparecer na esquerda, colado em Zeca. Olha o espaço que sobra no lado inverso da bola (com Marquinhos Gabriel, na direita). É por lá que Rômulo, que recebe o encaixe atrasado e por trás de Benitéz, chega de surpresa em mais uma chance criada.

Tudo isso durou exatos trinta minutos. A expulsão de Léo Jabá desmontou a estratégia, levou o emocional para baixo e deu os espaços para o São Paulo fazer dois gols.

Mas a coisa boa que fica é que o Vasco anulou o campeão paulista, com um elenco muito superior, na base da tática. Da inventividade. Da solução rápida que Lisca pode oferecer a um clube que, no momento, precisa subir para a Série A por sobrevivência financeira. Criatividade que pode continuar numa Série B muito mais difícil do que se pensava.

Fonte: Blog Painel Tático – ge

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