‘Esporte Espetacular’ lembra os 10 anos sem Pai Santana; confira reportagem

O mineiro Eduardo Santana correu pelos gramados dos estádios do mundo todo, especialmente, pelos campos de São Januário e Maracanã. Utilizava as mãos com força e destreza, mas não era goleiro. Ganhou títulos – está nas fotos posadas de várias conquistas do Vasco – embora não fosse treinador. Teve – e ainda tem – o nome ecoando pela arquibancada, sem jamais chutar uma bola. Em suma, um caso único de quem se tornou ídolo de milhões de torcedores sendo apenas massagista. É que, na realidade, o icônico Pai Santana – morto aos 77 anos, em 1º de novembro de 2011, vítima de uma insuficiência respiratória decorrente de uma pneumonia – era referência no ramo, entretanto, sua atuação no vestiário ia bem além da profissão.

Pai Santana chegou ao Vasco como funcionário registrado em 1970. Teve uma breve passagem pelo Oriente Médio na década de 80, porém, ficou até o início dos anos 2000 no clube, quando uma sequência de AVCs o debilitou. Na Colina Histórica, trabalhou profissionalmente com todos os grandes nomes que envergaram a camisa cruz-maltina. Roberto Dinamite – o maior ídolo da história do clube – ganhou o Campeonato Brasileiro de 1974 já sob os cuidados do massagista.

– A relação dele transcendia essa coisa de ser o massagista. Ele era um profissional completo. Por onde passava e chegava, era também um ídolo para o torcedor vascaíno. Muitas vezes ele me ajudou para que eu pudesse estar em um grande jogo do Vasco, ele ia lá pra casa fazer o tratamento, comia pra caramba (risos), mas dava o retorno. Ele me ajudou muito, em alguns jogos que eu ficaria de fora, ele me ajudava a estar em campo para ajudar o Vasco conquistar a vitória – comentou o ex-camisa 10 ao “Esporte Espetacular”, lembrando que o amigo também foi boxeador na década de 50 e que teve passagem pela Seleção Brasileira como massagista.

Macumbeiro, Santana fazia “trabalhos” para ajudar o Vasco – jamais para prejudicar o adversário, como conta Dinamite, entusiasta da ideia de ver Santana ser eternizado em uma estátua.

– Quando fazia alguma coisa não era pra prejudicar alguém, era para limpar nosso caminho para podermos chegar aos objetivos, às grandes vitórias e conquistas. Foi um cara do bem, O Santana merecia tanto quanto os ídolos e jogadores que passaram por aqui… Falam de estátua para mim, tem a do Romário, por que não uma do Santana? Ele não só simboliza o futebol, mas essa raiz do que é a história do Vasco.

Na década seguinte, precisamente em 1985, Romário despontava como a grande promessa do Vasco. Ali, o Baixinho iniciou sua relação com Pai Santana – prolongada até hoje pela amizade que tem com Roberto Santana, o Bola 7, herdeiro do massagista. O ex-atacante se emociona só de relembrar o passado.

– Foi uma oportunidade única conviver com uma pessoa maravilhosa, um profissional capacitadíssimo na sua época, talvez o melhor daquela geração. Era sério, competente e dedicado. E uma coisa muito importante: trabalhava no clube do coração. Ele reunia tudo isso e ainda era vascaíno.Vai ser um cara eternamente lembrado por mim pelos anos que a gente passou. Ele não foi uma pessoa folclórica no futebol brasileiro ou carioca, ele foi um ídolo. Tem que respeitar. A religião dele, a fé, essas coisas eram muito grandes, positivas. Por mais que algumas pessoas não acreditassem, o que é um direito, eu, particularmente, sempre acreditei que a fé dele era uma fé positiva. Ele passava uma energia boa para mim. Sempre passou.

strela do Vasco na conquista do tricampeonato brasileiro, em 1997, Edmundo foi um dos jogadores mais próximos de Pai Santana. Com os olhos marejados, o “Animal” recorda o ritual que Santana fazia em campo, reverenciando a torcida.

– É muito triste, são dez anos sem uma das pessoas mais importantes que eu tive na minha vida. No Maracanã ou em São Januário, ele entrava na nossa frente, estendia e beijava a bandeira. Aquilo inflamava a torcida e nos enchia de energia. É meio inexplicável resumir o Pai Santana em uma história ou em um dia, ele era especial todos os dias. O Pai Santana conquistou sua idolatria por mérito, sem nunca ter feito um gol. Foi por dedicação e amor ao Vasco. Club de Regastas Vasco da Gama e Pai Santana se misturam, pelo menos, nas últimas cinco décadas. Foi o melhor profissional que eu já tive a oportunidade de trabalhar.

Após o título, Edmundo se despediu do Vasco. Em 1998, foi substituído por Donizete, encarregado de suprir a ausência do jogador que havia quebrado o recorde de gols em uma única edição de Campeonato Brasileiro. O “Pantera” começou de forma tímida sua trajetória, o clube tropeçou nas três primeiras rodadas da Libertadores da América (duas derrotas e um empate), até que o “coaching” Santana entrou em ação.

Diante do Grêmio, ainda na fase de grupos, em São Januário, o Vasco deslanchou: anotou 3 a 0. Donizete, que balançou as redes e deu uma assistência para Luizão, enfim, brilhou. E se arrepia ao reproduzir o diálogo com Pai Santana naquela noite.

– Cheguei ao Vasco para substituir um ídolo, numa competição que o clube sonhava conquistar no ano do centenário. Foi muito difícil, eu não me encontrava. Na véspera do jogo contra o Grêmio, o Pai Santana entrou na minha vida. Viu que eu estava precisando de ajuda, deve ter sentido que eu estava precisando de um paizão. Deitei na maca, ele veio todo elegante, todo de branco, luva, naquele nível. Ele não era massagista, era um doutor, doutor Pai Santana. Ficou conversando comigo, abrindo meu coração. Foi tirando aquele brilho, me lapidando com a massagem. Com as palavras dele, voltou o Donizete a vibrar, saiu o gigante ruim e entrou o gigante positivo.

– O Pai Santana falou para mim que eu seria o melhor jogador em campo se acreditasse naquelas palavras. Eu dei um abraço nele, e ele falou: “Vai com Deus, você vai arrebentar hoje”. E foi a minha ascensão no campeonato, fui considerado o melhor em campo contra o Grêmio. Depois do jogo, nos abraçamos, choramos juntos, foi espetacular. Obrigado, Pai – declarou o veterano, que balançou as redes quatro vezes na fase mata-mata, duas nas finais contra o Barcelona, do Equador.

RELIGIOSIDADE, RESENHA E FOLCLORE

A competência de Santana como massagista fica nítida em cada depoimento das pessoas que conviveram com o profissional, mas é impossível citá-lo sem falar de sua religiosidade e seus causos. Praticante da Umbanda, o pai de santo era capaz de tentar de tudo para ajudar o Vasco a conseguir suas vitórias e muitas vezes apelou para o misticismo. Não à toa era chamado de Pai Santana.

– O Pai Santana é uma das figuras mais emblemáticas da história do futebol do Rio e do Brasil, não só do Vasco. Pai Santana foi massagista, um grandessíssimo macumbeiro. Era Pai de Santo de Umbanda, trabalhava com uma entidade, o Exu do Cruzeiro das Almas. A vida do Pai Santana está ligada a essa encruzilhada entre o futebol e a fé, o misticismo brasileiro. O Santana talvez seja o personagem mais emblemático da nossa história, desse envolvimento entre o futebol e o misticismo, o futebol e a umbanda, o candomblé. Esse campo das macumbas. Para se contar a história do futebol brasileiro fora das quatro linhas, o Santana é um personagem fundamental – explicou o historiador Luiz Antônio Simas.

Exu é o mensageiro entre os seres humanos e o plano espiritual. Como bom seguidor, Pai Santana dominava a arte de se comunicar e de levar o Vasco como mensagem aonde quer que fosse. Em jogos decisivos do Vasco, também era garantido: o massagista faria um de seus trabalhos com o Seu Cruzeiro das Almas, muitas vezes no cemitério, local onde a entidade tem sua energia ligada.

Viúva de Santana, Dona Carmen não só escutou as histórias dele sobre os trabalhos que fazia, como o acompanhou algumas vezes.

– Ele ia pro cemitério fazer as macumbas para o Vasco ganhar, e eu ia junto. Tinha tudo isso (risos) – divertiu-se, ao lembrar das situações.

O zagueiro Ricardo Rocha, que atuou pelo Gigante da Colina nos anos de 1994 e 1995, costumava brincar com Pai Santana quando ele deixava a concentração de madrugada.

– Eu brincava muito com ele. Ele falava: “Essa noite…”. Essa noite o quê, cara? Que trabalho, p***? Você tem que cuidar do meu tornozelo. Vai pra onde? Ele falava: “Calma, tranquilo, amanhã você vai ver, está tudo fechado”. “Fechado o quê, Santana? Tem que fechar a defesa, p***, o Jair Pereira tem que treinar sem a gente tomar gol (risos).
E se o clássico era contra o Flamengo, não tinha jeito. Pai Santana gostava de aprontar das suas. Um bom exemplo é a final da Taça Guanabara do Campeonato Carioca de 1976. O massagista garante que desceu de helicóptero na Gávea, sede do Flamengo, para fazer um despacho para o Vasco sair campeão. Se é lenda ou verdade, é difícil dizer. O fato é que na disputa de pênaltis o goleiro Mazaropi defendeu cobranças de Zico e Geraldo “Assoviador”, e o Cruzmaltino levantou a taça.

Mas apesar da devoção à Umbanda, Pai Santana mostrou que se adaptava a qualquer cultura e religião. Na década de 80, convidado por Antônio Lopes, o massagista foi trabalhar na seleção do Kuwait. Lá, caiu nas graças do Sheik do país, virou referência na profissão e surpreendeu a todos ao aderir ao Islamismo. Como muçulmano, passou a se chamar Ahmed Santana. Nos anos no país, trabalhou também com Luiz Felipe Scolari, que guarda boas memórias do amigo e até hoje se espanta com a facilidade dele para se comunicar mesmo sem falar árabe.

– O Sheik adorava ele. Eu não sei como ele fazia, não entendo. Porque se ele falasse uma palavra em árabe, digamos que “água” em árabe ele poderia saber, mas ele falava em português e a pessoa do lado de lá entendia.

A passagem pelo Kuwait foi interrompida em 1990, quando estourou a Guerra do Golfo. A seleção do país estava na França quando o Iraque invadiu a região. Não houve sequer tempo de voltar lá. O retorno ao Brasil foi imediato.

– Eu estava na seleção do Kuwait naquela época. Fomos à França fazer a pré-temporada pros jogos em Pequim, e o Iraque invadiu o Kuwait. Nós ouvíamos ele falando com os jogadores. Porque os jogadores naquela oportunidade voltaram da França pra Arábia Saudita, da Arábia Saudita para o Kuwait não tinha como entrar, eles entraram pelo deserto, com carros, e o Santana queria ir junto. E nós: “Não, não faça isso não, é uma guerra. Não temos como participar”. Mas o Santana queria ajudar, queria fazer. Nossos jogadores estavam… tinham famílias dentro do Kuwait, posses, estavam apavorados. E o Santana via também como ajuda naquele momento, mas quando chegamos em Paris, viemos embora – contou Felipão.

O RITUAL DE CADA JOGO

Foi na volta ao Vasco em 1990 que Pai Santana trouxe uma herança islâmica que se tornou ritual para ele e para os torcedores do clube. Antes de cada jogo, o massagista entrava em campo, estendia no chão a bandeira do Gigante, se ajoelhava e beijava. A arquibancada explodia aos gritos de “Santana é nosso rei!”. E Simas explica o significado do gesto.

– Ele passa a usar a bandeira do Vasco como o tapete. O muçulmano quando reza para Meca, estende o joelho, beija o tapete e reza. A Meca do Santana era a torcida do Vasco.

Ídolos do clube, como Dinamite, Romário e Edmundo também se recordam com carinho do ritual de Pai Santana, era celebrado tanto ou mais que os próprios atletas.

– Estávamos ali fazendo aquecimento e, antes de entrarmos no campo, ele entrava, era a estrela, o destaque, de uma forma espontânea. Ele passou a ser uma atração. Estávamos ali fazendo aquecimento e, antes de entrarmos no campo, ele entrava, era a estrela, o destaque, de uma forma espontânea. O negão ia lá, entrava, saudava a torcida, botava a abandeira do Vasco, ajoelhava, abria os braços, a galera ia ao delírio – disse Dinamite.

– Eu achava isso super importante. Era um ritual que a torcida também tinha. Não era só no Rio e só em São Januário, não. Se a gente fosse jogar no Acre, Rondônia, Amazonas, estou falando esses lugares porque são longe do Rio, né? Os torcedores que estavam lá, independente do número, gritavam os jogadores e gritavam o Pai Santana – afirmou Romário.

– Estendia a bandeira, beijava a bandeira. E acho que aquilo ali já inflamava a torcida e nos enchia de energia – garantiu Edmundo.

Filho do massagista, Roberto Santana, conhecido como Bola 7, segue a profissão do pai e exaltou a alegria de vê-lo ser festejado pela massa nas partidas.

– Isso era demais. Era tudo. Aquilo era a coisa que a gente ficava arrepiado, gostava de ver. Quem não gosta de ver seu pai ser ovacionado pela torcida? – declarou.

Roberto, inclusive, tem até hoje o traje que o Pai Santana usava nos jogos, sempre elegante com seu fraque branco, e topou vestir para refazer o ritual dele em São Januário para a reportagem. Apesar de ter deixado a vida há 10 anos, naquele 1º de novembro de 2011, mesmo ano do último título nacional do clube, a Copa do Brasil, Pai Santana segue vivo na memória dos vascaínos apaixonados. Atualmente, uma das canções cantadas pela torcida nos estádios carrega o verso “Santana vai me iluminar”.

 

Fonte: ge

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