Vasco lança nota sobre expressões homofóbicas nos estádios

Torcida Consciente – Por que não devemos usar palavras ou expressões homofóbicas?

Gigante da Colina busca ampliar o debate e esclarecimento ao seu torcedor

Em primeiro lugar, não devemos utilizar palavras ou expressões homofóbicas porque é crime, assim como a transfobia. No dia 13 de junho de 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu pela criminalização da homofobia e da transfobia, através da aplicação da Lei do Racismo (Lei n.º 7.716/1989). A Corte evidenciou a omissão do Congresso Nacional em aprovar uma legislação específica contra casos de agressões contra o público LGBTQIA+. Diante disso, decidiu-se que esses casos fossem enquadrados como o crime de racismo até que uma norma específica fosse aprovada pelo Congresso.

A criminalização da homofobia e da transfobia prevê que praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito em razão da orientação sexual da pessoa poderá ser considerado crime. A pena será de um a três anos, além de multa. Em caso de haver ampla divulgação de ato homofóbico em meios de comunicação, a pena será de dois a cinco anos de prisão, além de multa.

Na esfera esportiva, cada vez mais aumenta-se o cerco contra atos homofóbicos e transfóbicos. Um canto homofóbico pode fazer com que o clube perca pontos na tabela do Campeonato Brasileiro, além de multa. Os danos dessa punição pode levar a agremiação a perder um campeonato, deixar de ir para a Libertadores ou mesmo ser rebaixado, se estiver lutando na parte de baixo da tabela. Além da punição desportiva existe uma punição da própria opinião pública, podendo o clube ficar com uma imagem desgastada caso seus torcedores sejam reincidentes nessa questão.

O mundo é de todos e todas. O futebol é para todos e todas. Àqueles que são amantes do futebol, pouca coisa na vida é mais bonita que ver a torcida do seu clube em grande número, em uníssono, cantando para incentivar a sua equipe em um jogo. Mas, infelizmente, o futebol serve de microcosmo em que se manifestam problemas da sociedade na qual ele é praticado. Nos estádios do Brasil, testemunhamos cânticos com palavras e expressões homofóbicas, ou termos que são utilizados como forma de atingir uma pretensa orientação sexual enxergada como “errada”, estigmatizando uma determinada torcida/clube.

As torcidas/clubes mais ofendidos são as que possuem ao menos três cores em suas bandeiras, os tricolores. Entretanto, de certa forma, todas as torcidas, dos mais variados clubes ofendem umas as outras com cânticos homofóbicos. Não raro, pessoas homossexuais são constrangidas e agredidas verbalmente e/ou fisicamente dentro e fora dos estádios. Torcidas organizadas que são constituídas abertamente por pessoas LGBTQIA+, fazendo referência a esse fato, como forma de manifestar o amor ao clube que torcem e também combater o preconceito, são vistas como motivo de vergonha por grande parte dos outros torcedores e torcidas organizadas da mesma agremiação.

São vários os exemplos de cânticos que lançam mão de expressões/adjetivos homofóbicos: “viado”, “time de viado”, “tricolete”, “viadinho”, “bâmbis”, “flores”, “bichas”, etc. Além daqueles que fazem referência à prática do sexo anal, colocando como inferior aquele que o pratica, estigmatizando uma torcida por praticá-lo. Há, inclusive, referências específicas a pessoas oriundas de determinado estado do Brasil, fazendo com que sejam enxergadas como inferiores por serem identificadas como homossexuais.

Alguns números ajudam a percebermos a gravidade da violência contra gays, lésbicas, pessoa trans e outros grupos cuja orientação sexual é diferente do hétero. Esses dados evidenciam que os atos homofóbicos praticados no ambiente do futebol representam um reflexo da própria forma como a sociedade brasileira trata aqueles enxergados como “anormais” diante de um padrão heteronormativo. Segundo o Relatório do Grupo Gay da Bahia, 300 pessoas LGBTQIA+ sofreram morte violenta no Brasil no ano de 2021. Esse número representa um aumento de 8% em comparação com o relatório do ano anterior. O Brasil continua sendo um dos países onde mais pessoas LGBTQIA+ são assassinados.

Uma parcela dos que acompanham o futebol entende que combater cânticos homofóbicos faz com que em defesa do politicamente correta haja um cerceamento da liberdade de expressão. Entretanto, um crime não pode ser enquadrado como liberdade de expressão. Devemos recordar que décadas atrás jogadores vascaínos sofriam com xingamentos e perseguições racistas, eram punidos na esfera esportiva por não se enquadrarem ao padrão moral definido à época. Há relatos de que Nelson da Conceição, primeiro goleiro negro do Vasco, da Seleção Brasileira e da Seleção Carioca, era alvejado com pedras tacadas por adeptos de clubes coirmãos no Rio de Janeiro durante as partidas.

Em 1907, o Vasco da Gama e seus atletas do remo sofriam perseguições (Sim! Muito antes do futebol entrar no Clube!) na Federação Brasileira das Sociedades do Remo, por conta do seu quadro de remadores ser majoritariamente formado por portugueses que eram empregados do comércio na função de atendente. A Federação aprovou regra que excluía o registro de amador de regata (remadores e patrões), inclusive os que já tinham sido campeões, caso as profissões dos atletas não fossem “moralmente dignas”. Naquela época, a agremiação vascaína já possuía dois títulos do Campeonato de Remo do Rio de Janeiro (1905-1906).

O Vasco da Gama foi contra essa medida, defendendo a sua pioneira conduta assimiladora de segmentos sociais excluídos. No Relatório da Diretoria daquele ano observamos o seguinte trecho: “E ainda dizendo-vos (os adversários, grifo nosso) intimamente que as condições de sympathia para connosco mais se fortaleceram com a honrosa causa que tão amplamente defendemos, é porque o correr dos tempos nol-o tem mostrado”. Os dirigentes vascaínos destacaram o aumento da simpatia para com o Vasco, a partir de uma postura assimiladora do Clube. Agremiação vascaína adotou uma política de assimilação para alcançar a grandeza esportiva. conseguindo com isso chegar ao patamar de um gigante do esporte nacional.

O Vasco é do tamanho da sua história. Para sermos fiéis à história do nosso Vasco, precisamos combater preconceitos. Precisamos assimilar e não excluir. Precisamos acolher e não expulsar. Precisamos respeitar a orientação sexual ou o gênero com o qual uma pessoa se identifica. Não podemos estigmatizar escolhas. Não podemos usar essas escolhas para ofender outras torcidas. Não podemos tratar essas escolhas com significado negativo. Façamos “tremer o rival e a terra” através da nossa imensa torcida, expressando o quão grandioso é o Vasco da Gama. Cantemos a grandeza do Vasco.

Conforme diz a letra da música: “Jamais terás a Cruz, este é meu batismo. Eu tive que lutar contra o teu racismo”. Hoje, ainda é preciso lutar contra o racismo. Porém, há outras formas de preconceito que também precisam ser combatidas, como a homofobia e a transfobia. Os vascaínos de ontem fizeram a Resposta Histórica. Os vascaínos de ontem fizeram São Januário. E nós? Não podemos cair no cômodo lugar da nostalgia ou de ações pontuais.

Torcida vascaína! Façamos diferente não por medo de punições. Façamos diferente porque é o correto. Para um almirante a coragem é lei. É preciso ter coragem para mudar. É preciso ter coragem para corrigir. É preciso ter coragem para ser Vasco. Vascaínos (as), precisamos ser cada vez mais Vasco.

Fonte: Site oficial do Vasco