Figueiredo: ‘Desde moleque eu arrisco de fora da área. E meu pai me cobra muito isso’

“Falei de você, hein!”. Foi com esse ar orgulhoso, jeito de menino, brilho nos olhos e sorriso no rosto que Figueiredo foi contar a novidade ao seu pai Wagner, enquanto posava para fotos à reportagem do UOL Esporte. Craque do jogo na importante vitória do Vasco sobre o Bahia por 1 a 0 no último domingo (15), o atacante de 20 anos se referia aos bastidores do golaço que marcou em São Januário diante do Tricolor baiano, revelados nesta entrevista exclusiva feita ontem (17) no CT Moacyr Barbosa.

Segundo Figueiredo, o chute de fora da área que originou o gol – o primeiro como profissional do clube – era um constante pedido feito por Seu Wagner.

“Desde moleque eu arrisco de fora da área. E meu pai me cobra muito isso, que eu arrisque mais de longe porque tenho um chute forte. Foi no momento certo e na hora certa”, declarou o atacante.

Mesmo ciente da potência do chute do filho, a velocidade alcançada na cobrança surpreendeu Seu Wagner.

“Esse trabalho tem sido feito. Eles já tentaram várias vezes, mas não sabia que ia sair uma pancada assim de 106 km/h [risos]”, disse o pai do jogador se referindo ao número apresentado na transmissão da TV Globo.

“É muita luta, foi inesquecível! A gente já vinha esperando, queria que acontecesse. Ele vinha tentando, trabalhando, até que apareceu o gol. Na hora, no momento, foi muita emoção. Os colegas ali em volta de mim, me abraçando…”, se recorda Seu Wagner.

De acordo com Figueiredo, de fato a jogada do gol foi ensaiada. O atacante revelou o que falou com Nenê no momento da cobrança.

“A gente já vem treinando essa jogada há algum tempo, sendo que, no treino, às vezes eu chutava rasteiro, às vezes pegava na veia….E no jogo, graças a Deus, fui feliz. Na hora ali eu falei: ‘Pô, Nenê, daqui eu pego, hein’. Aí o Edimar também passou puxando a marcação e, quando o Nenê tocou para mim…[risos]. Nenê é o nosso cobrador, né? E ele confiou em mim. Graças a Deus, fui feliz”, ressaltou, complementando:

“Te falar, cara. Eu só acreditei que a bola entrou quando vi a vibração da torcida [risos]”.

A emoção de Figueiredo foi tanta que ele até esqueceu de fazer seu tradicional salto “mortal” na comemoração, tão característico na base.

“Me emocionei. Foi aquele choro rápido de alegria. É uma mistura doida. Geralmente eu até dou um mortal, mas só que na hora ali não tem nem como você lembrar. Foi uma sensação única”, declarou.

Nas imagens dos bastidores divulgadas ontem pela Vasco TV, o técnico Zé Ricardo aparece abraçando o jovem e dizendo: “Eu disse que seria num dia especial”.

Figueiredo sobre declaração de Danilo: ‘Foi mais mérito meu do que falha dele’

Na saída de campo, o goleiro do Bahia, Danilo Fernandes, deu uma declaração à TV Globo que não caiu bem para os torcedores do Vasco. O arqueiro disse que a festa na arquibancada parecia “comemoração de título” e que o gol havia sido uma falha sua. Para muitos vascaínos, o tom soou com arrogância.

Questionado sobre o que achava da opinião de Danilo em relação ao seu gol, Figueiredo respondeu da seguinte forma:

“A minha opinião é que foi mérito meu. Uma bola difícil, que foi variando. Não acho que foi falha dele não, mas… [risos]. Foi mais mérito meu do que falha dele”.

Na avaliação de Figueiredo, seus chutes passarão a ser mais visados pelos goleiros a partir de agora.

“Antes os goleiros sabiam que essas faltas assim eram só o Nenê, né? Mas agora vão ficar preocupados um pouquinho mais”, opinou.

Prefere evitar comparações com Dinamite

Quase que automaticamente, muitos torcedores do Vasco passaram a comparar o primeiro gol de Figueiredo como profissional com o primeiro do ídolo Roberto Dinamite no time de cima.

Na ocasião, em 25 de novembro de 1971, Roberto também estufou a rede com um chute forte, de fora da área, na vitória do Vasco por 2 a 0 sobre o Internacional pelo Campeonato Brasileiro. O feito, inclusive, lhe garantiu o apelido de “Dinamite”, batizado pelo “Jornal dos Sports” que estampou em sua manchete: “Garoto-Dinamite explodiu”. Embora seja fã do craque, Figueiredo prefere evitar comparações.

“Foi muito parecido, mas não tem com comparar a ele. Ele fez grandes coisas aqui no Vasco e eu espero fazer também, mas comparação assim acho muito difícil pela grandeza que ele tem no clube, mas eu fico feliz que o pessoal está comparando. Porém, da minha parte, não posso deixar isso entrar na minha cabeça”, ressaltou, tendo a opinião compartilhada por seu pai Vagner:

“Eu cheguei a vê-lo jogando, mas sem comparação. Roberto é um craque, um ídolo aqui dentro. Eu só tenho a agradecer a Deus que ele [Figueiredo] está sendo iluminado aqui”.

Arrepiado com narração de Luis Roberto

Figueiredo já perdeu as contas de quantas vezes viu na Internet seu gol sobre o Bahia. Em todas, porém, garantiu que a sensação foi a mesma. Para ele, ter o tento narrado por Luis Roberto, da TV Globo, lhe trouxe ainda mais emoção para o momento.

“Ele [Luis Roberto] é muito fera. Toda hora estou vendo e fico me arrepiando. Postei até no meu Instagram. Não tem como não se arrepiar com a narração dele”, elogiou o jogador sobre o narrador.

Pensou em desistir quando foi dispensado pelo Botafogo

A frase predileta de Figueiredo diz: “Só vive o propósito quem suporta o processo”. E foi carregando este lema que o atacante não desistiu da carreira precocemente. Ela teve início nas escolinhas de Niterói, até que surgiu a oportunidade de ir para a base do Botafogo aos 11 anos. Por lá, ficou até o sub-15, quando foi dispensado de uma forma que ele não recebeu bem.

“Fui mandado embora por telefone. Ligaram para o meu pai. Eu não entendi nada”, recorda o jogador, que admite que, naquele momento, pensou em desistir da carreira, mas conseguiu ser forte.

“Quando fui mandado embora do Botafogo, pensei várias vezes em desistir porque é um choque para qualquer moleque. Eu fiquei parado um tempo sem jogar, sem clube, até que apareceu o Boavista [RJ]. Consegui ir bem lá, me destacar e apareceu o convite do Vasco”, explicou o jogador, que chegou ao Cruzmaltino de 16 para 17 anos.

Sobre ‘descer’ para disputar Copinha: ‘Foi tipo oito ou oitenta’

Figueiredo já havia tido oportunidades no profissional ano passado, mas assim como o restante da equipe, não atingiu seu melhor desempenho na campanha que culminou na permanência do Vasco na Série B. O jogador, então, decidiu tomar uma atitude difícil, mas que acabou se tornando crucial para seu bom momento de agora: “descer” para o sub-20 e disputar a Copinha deste ano.

“No final do ano eu conversei com o pessoal aqui, pedi para jogar a Copinha, aí o treinador de lá me ligou, o Igor Guerra, e eu falei que ele podia contar comigo e ele me abraçou. Também tenho que agradecer a ele que me quis no elenco”, declarou.

A decisão não poderia ser mais acertada. Figueiredo fez oito gols – sendo um deles um dos mais bonitos do futebol brasileiro na temporada — e foi o artilheiro da competição junto com Werik, do Oeste. O bom desempenho renovou sua confiança e lhe rendeu novas oportunidades no profissional com o técnico Zé Ricardo.

“Aqui [no profissional] eu não estava muito bem. Aí quando fui para a Copinha, foi tipo oito ou oitenta. Ou ia me queimar de vez ou ia fazer o que fiz, retomar a confiança e, graças a Deus, fiz uma boa Copinha, saíram os gols e minha confiança foi lá em cima”, avaliou.

Ponta ou centroavante? Para ele, tanto faz

Na Copinha, Figueiredo atuou como centroavante, posição diferente dá que tem jogado no profissional com Zé Ricardo. O jogador, porém, garante que não há preferência e que já atuou desta maneira muitas vezes nas divisões de base.

“Fico muito à vontade jogando de ponta, porque desde a base eu jogo de ponta ou centroavante. E indo bem nas duas funções é bom para qualquer treinador. Para mim é tranquilo”, disse Figueiredo.

Avô pé-quente e paixão por Niterói

Não bastasse Figueiredo ter feito seu primeiro gol como profissional diante de um São Januário lotado e num duelo com o até então líder da Série B, ele ainda realizou o feito diante de seus familiares, que estavam no estádio. Na ocasião, estiveram presentes o pai, a mãe, a esposa, a filha, a sobrinha e uma pessoa em especial: seu avô Wilson, que pela primeira vez marcou presença no local e foi “pé-quente”, segundo o próprio.

“Ele diz que o verdadeiro Figueiredo é ele [risos]”, disse o atacante, que tem como primeiro nome Lucas.

Além do apego pela família, o jogador também é apaixonado por Niterói (RJ), cidade vizinha à capital carioca onde nasceu e que mora até hoje. Ele admite que a distância para o CT Moacyr Barbosa, que fica na Cidade de Deus, na Zona Oeste (RJ), é um dificultador, mas deixar seu local de origem não está sendo uma tarefa simples.

“Pela distância eu penso [em se mudar para mais próximo do CT], só que sair de lá é meio difícil para mim porque tenho tudo, meu ambiente é lá. Mas eu vindo para cá, ganho mais descanso”, avaliou.

Nos momentos de folga e lazer, é por lá que Figueiredo também gosta de ficar. Mais precisamente na praia de Icaraí:

“A praia de Icaraí eu não largo por nada. Gosto de jogar futevôlei com a rapaziada, altinha…Niterói tem outras praias, mas não consigo desapegar dali não”.

Conselhos dos mais experientes

Figueiredo revelou que tem recebido conselhos dos mais experientes. O zagueiro e capitão Anderson Conceição, por exemplo, foi um que teve uma conversa em particular após a vitória por 1 a 0 sobre o Bahia.

“Ontem mesmo o Anderson falou para mim: ‘Agora que é a hora, parceiro. Tem que manter sua cabeça firme e não pode cair na perdição, porque a cobrança vem maior agora’. E é isso. Eles [experientes] nos passam orientação”, disse o atacante, revelando também dicas do meia Nenê:

“Quando treino falta com o Nenê, ele me passa dicas, e é assim. Eles nos passam a vivência que já tiveram”.

Fonte: UOL