Cristóvão assume risco em novo período sem clube: 'Penso na carreira'

Quando deixou o Vasco, após mais de um ano debaixo de pressões e desconfianças apesar do vice-campeonato brasileiro e boa campanha na passagem por São Januário, Cristóvão demorou sete meses para acertar com um novo clube. Resistiu à boa oferta do Palmeiras, que demitira Felipão, e não fechou com nenhum clube que se interessou pelo seu trabalho até fechar com o Bahia sete meses depois de se despedir do Vasco. Sem acordo para continuar no tricolor baiano – apesar de evitar a queda do Bahia para a Segundona, ele não quis permanecer em Salvador sem o diretor de futebol Anderson Barros -, o treinador já está há um mês desempregado e assim deve ficar até o Brasileiro.
 
– Não quero emendar um trabalho no outro. Sei que é um risco, porque é interessante estar no mercado, em evidência, essas coisas. Mas penso na minha carreira, esse é meu pensamento. Essa coisa de emendar trabalhos, temos vários exemplos aí, nem sempre se faz a melhor escolha. Não se trata nem de escolha certa, porque não existe isso. Às vezes você faz uma escolha com todas possibilidades de dar certo e não dá. Mas se você pensar bem sua carreira, a sua possibilidade de acertar é maior – acredita o baiano Cristóvão Borges, que completa 55 anos dia 9 de junho e não quer acelerar seu retorno aos campos. – Vou ter paciência e esperar oportunidade para fazer um bom trabalho. Isso é o que mais desejo. Vou aguardar.
 
Com mais duas pessoas em sua comissão técnica – o preparador físico Rodrigo Polleto e o assistente Cassiano de Jesus -, Cristóvão reconhece que é difícil de controlar a própria ansiedade, mas sente que é preciso esperar um pouco para embarcar numa nova missão. Depois de encarar turbulências quase que diárias no Vasco e crise política que gerou até troca de presidente antes do fim do mandato no Bahia, o técnico mantém uma rotina de estudos que inclui discussão sobre jogos, vídeos de treinos, pesquisa em livros e na internet e prática em programas de treinamentos virtuais. São até três reuniões por semana na sua casa, na Lagoa.
Mosaico técnico Cristóvão Borges (Foto: Raphael Zarko)
 
Para o treinador, esse método deu muito certo no Bahia. Cristóvão revela que o Vasco o sondou no fim do ano ao se desligar do Bahia e também admite que o Fluminense o procurou quando demitiu Vanderlei Luxemburgo, no último Brasileiro – ele rejeitou a oferta para continuar em Salvador. Grêmio e Botafogo também sinalizaram interesse, mas as conversas não andaram.
 
A vida de treinador, aliás, não estava nos planos de Cristóvão. Ele lembra da convivência com Ricardo Gomes como auxiliar e sentia que aquela posição bastava para preservar até mesmo sua saúde. O acidente vascular cerebral do amigo em pleno Engenhão fez Cristóvão descer para o campo, tomar gosto e nunca mais querer sair. Era fim de julho de 2011 e a vida de Cristóvão mudaria para sempre.
 
– Não tinha pretensão de ser treinador. Achava a carreira de treinador muito desgastante, muito injusta e acho que se perde saúde com essa vida. Como assistente eu trabalhava com um cara interessante, com quem aprendi muito e para mim estava suficiente. Eu via toda a carga de responsabilidade, o desgaste, pensava que não queria aquilo para mim. Mas aí aconteceu aquilo com o Ricardo e depois refleti sobre isso. Refletindo sobre tudo aquilo tive a sensação de que era uma missão – lembra o treinador, que recorda as dificuldades daquela experiência em São Januário.
 
– Apesar de todos os problemas, eu gostei do que tinha feito. Porque foi muito difícil, foi duro, tive que resolver aquilo que era difícil para todos, tive ajuda de muita gente e tomei gosto por aquilo. Por isso quero mais.
 
Frustração por deixar o Bahia
 
Os mares turbulentos em São Januário o fizeram enxergar a pressão no Bahia de forma diferente. Cristóvão considera que foi “fácil e tranquilo” administrar e gerir os problemas do Bahia. Mesmo com a chegada após duas goleadas na final do Campeonato Baiano para o rival Vitória. Mesmo com troca de diretoria no meio do Brasileiro. O Bahia, com pouco mais de 40% de aproveitamento de pontos conquistados na passagem de Cristóvão, escapou da queda com uma rodada de antecedência, terminando na 14ª posição a competição. Depois de Evaristo de Macedo em 2001, ele era o primeiro técnico a iniciar e terminar o Brasileiro à frente do Esquadrão de Aço.
 
técnico Cristóvão Borges (Foto: Raphael Zarko)
 
 
Ainda engasgado com a derrota do título brasileiro de 2011 – o treinador lembra com dor do empate com o Palmeiras no fim do campeonato -, Cristóvão também lamenta não ter permanecido no Fazendão para 2014. Com um grupo limitado, o time de Cristóvão conseguiu bons resultados na reta final, segurando empate contra o Grêmio no Olímpico e vencendo o Cruzeiro num Mineirão lotado. A facilidade de armar defesas, característica que já o marcava no Vasco, gerou críticas de torcedores que o chamaram de retranqueiro em algumas oportunidades. Este possível rótulo não tira o sono dele.
 
– Não tenho essa preocupação, até porque a sequência do meu trabalho vai demonstrar o que faço. Não posso jogar com os jogadores que tinha no Bahia como joga o Barcelona. Lá (no Bahia) fui muito criticado e as pessoas diziam: ‘ah, joga com três volantes.’ Mas o treinador monta o time de acordo com elenco que possui. E procura fazer um time da melhor maneira para que seja eficiente. Tinha um grupo bastante aguerrido e precisava de equilíbrio. Por isso investia na organização de jogo. No fim, to
das essas críticas e esses críticos elogiaram a consistência que tínhamos, mesmo com as dificuldades – afirma o treinador, que vê potencial de crescimento enorme para os próximos anos do Bahia.
 
– O Bahia tem a possibilidade de dar um grande salto de qualidade. Os últimos anos o Bahia jogou para não cair. A nova direção entrou com ideias bem interessantes, querem investir e criar novas fontes de renda. Discuti com eles muitas ideias para 2014 e tenho uma frustração grande por não ter ficado mas a vida segue.
 
Fonte: GloboEsporte.com