Criadora do perfil Vasco Libras se diz surpresa pela repercussão e fala sobre sua paixão pelo clube

Acompanhar a entrevista coletiva de uma nova contratação ou o tão esperado “bastidores” após uma grande vitória já faz parte da rotina dos torcedores Brasil afora, mas que não é uma tarefa das mais simples para uma parcela significativa da população: a de pessoas com deficiência auditiva. Foi pensando nisso que Iathsa Oliveira criou o projeto “Vascolibras”.

No canal, Iathsa, que é Intérprete de Libras (Língua Brasileira de Sinais), faz a tradução de diversos vídeos divulgados pela VascoTV. O trabalho, inclusive, já chamou a atenção de integrantes do elenco, como o atacante Leo Jabá.

A paixão pelo Cruz-Maltino é herança familiar, mas a ideia de criar o “Vascolibras” foi mais recente, principalmente após o estouro das ‘lives’ durante a pandemia de coronavírus.

“A presença cada vez mais constante e eficaz dos intérpretes nas lives chamou atenção de todos né? Ano passado, um grupo de vascaínos do qual faço parte me convidou a gravar o hino do Vasco em Libras. Aceitei, eles postaram e viralizou. Com isso, um dos administradores do grupo do WhatsApp da Comunidade Surda Vascaína, o Renato, me convidou para ser Intérprete deles. Desde então, faço parte ativamente do grupo, onde eles postam vídeos e reportagens que não conseguem entender em português e eu os traduzo para Libras”, conta Iathsa Oliveira.

“O Vascolibras surgiu porque eu não acreditava que um clube como o Vasco teria apenas aquela parcela de torcedores surdos. Decidi criar o Instagram para levar um pouco do que é comentado no grupo do WhatsApp para todos terem acesso, realizando a acessibilidade e inclusão.”, completa.

A repercussão nas redes sociais foi grande, inclusive entre torcedores ouvintes, que passaram a divulgar a conta do Instagram.

“Eu não tenho palavras para descrever o que a torcida tem significado para nós. Sempre soube que os vascaínos são incríveis, mas viver isso na pele é totalmente diferente. Faço a interpretação, tradução, legendas, edição e postagens. Os únicos que me ajudam são os surdos, ao colocarem as dúvidas. Após eu explicar e eles compreenderem tudo é que posto nas redes. Interpretar e traduzir não é fácil! São coisas distintas, pois Libras é um idioma, assim como o português, inglês… E nem todas as palavras do português existem em Libras, e vice-versa, e cabe a nós, intérpretes e tradutores de Libras (TILS), sabermos contextualizar e passar a mensagem certa. E não podemos omitir e muito menos emitir juízo de valor”, explica.

Diversos torcedores estão compartilhando os vídeos produzidos por Iathsa, hoje moradora da cidade de Cerro Largo (RS). Recentemente, inclusive, Léo Jabá publicou uma mensagem a parabenizando pela iniciativa e considerando a ação como “fundamental”.

“Confesso que não [esperava tal repercussão]. Não do jeito que tem sido, é surreal! São muitas mensagens de carinho, incentivo, pessoas dizendo que haviam desistido de aprender Libras, mas que, depois do projeto, querem voltar a aprender. Torcedores de outros times estão me usando como referência. Mensagens dos próprios surdos que se sentem acolhidos com algo que é o mínimo. O que eu faço é um direito estabelecido por lei a eles. A comunidade surda está extremamente feliz”, diz ela, ressaltando a Lei Nº 10.436, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais, e Lei Nº 13.146, que institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência).

Paixão aumentou após visita quase frustrada a São Januário

Iathsa é de família vascaína e, como ela mesma conta, se tornou torcedora muito por influência da mãe. A paixão pelo Cruz-Maltino ficou ainda maior após uma visita à Colina, que quase foi frustrada.

“Minha família é vascaína. Meu pai [Avilla], embora não seja aquele torcedor ativo, é vascaíno, mas o amor pelo clube mesmo foi através da minha mãe [Silvia]. Quando meu irmão [Thauan] completou 16 anos, minha mãe resolveu realizar o sonho dele de conhecer São Januário. Em uma sexta-feira, ela resolveu nos levar para comemorar não só o aniversário dele, mas a aprovação na faculdade também. Quando chegamos, estava fechado ao público devido ao horário, mas, após explicar a situação, eles abriram e fizeram um mini-tour conosco, e nos convidaram para ir no jogo de estreia do Campeonato Carioca, que seria no domingo. E fomos. Quando chegamos e vimos a torcida cantando, com bandeirão e tal, consumou a minha escolha. Viramos fanáticos e em todos os jogos em São Januário e Maracanã estávamos presentes”, lembra.

Primeiro contato com Libras foi na Igreja

O primeiro contato de Iathsa com libras se deu em 2003, por meio da Igreja que frequentava em Niterói, município do Rio. Atualmente, ela é intérprete e tradutora de Libras (TILS), formada em Análise do Discurso Não Verbal. É também graduada em direito e pós-graduada em psicologia jurídica e forense, bem como em Libras.

“A Libras entrou na minha vida no ano de 2003. Meus pais se separaram, e eu, minha mãe e meu irmão nos mudamos para Niterói, para um apartamento que ficava a três quadras da Igreja Adventista do 7º dia, minha família materna é Adventista. Conhecemos o Clube de Desbravadores do Fonseca. Lá, tinha uma unidade que se chamava Formiga, que era dos surdos. Em todas as atividades que fazíamos, tínhamos de escolher um deles para participar conosco, fazendo assim com que tivéssemos que nos comunicar”, recorda.

“Eu queria me comunicar de forma eficaz, ter diálogos sem depender de ninguém. Após as reuniões, eles ficavam para o Culto dos Jovens, e eu também. Passei a me sentar com eles e fui conhecendo não só os sinais, mas a cultura surda. De início, copiava os sinais das músicas, às vezes fazia errado, mas com o contato vamos aprendendo a contextualizar. Eles foram me ensinando e quando percebi, estava interpretando sozinha músicas, palestras e eventos da igreja”, finaliza.

Fonte: UOL

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